quinta-feira, 4 de julho de 2013

teus olhos cor de terra
e o resto cor de vinho
cada dente teu rasgando as cascas das minhas feridas e meu sangue deixando marcas.
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não há nada de lindo nisso

terça-feira, 2 de julho de 2013

Tu é meu segredo que eu não sei desvendar. Não destranco o cadeado, mas eu tenho a chave. Só não sei que hora girar. Teu peito é um balão azul que me carrega sem saber, eu voo por teu céu como se fosse o meu. Chega mais perto, little bird. Prometo que tento te salvar do maremoto ou da tempestade, dependendo da fase da lua. O peso do apelido eu ainda carrego e o barulho que a chuva faz no telhado ainda é o que embala as madrugadas em que eu não durmo. Salvo meus pedaços para poder me salvar mais tarde. Ainda espero que não me encontre no caminho e me encontro no meu lugar secreto, que agora não é mais tão bonito.

Sing to me, little bird.

Tua canção não é triste apesar de saber como ser. Eu gosto do tom que tu usa para me fazer dormir, apesar da insônia. Conto as penas que arranquei de ti, uma a uma. A dor foi tua e minha. Dividida, assim como os lados do dado do jogo. Desigual, desigual. Eu não me faço entender por medo. Exposição é risco, baby. You should know. O sol queima a pele por querer mudança, arriscar riscando o véu que protege os olhos. Eu tento cantar Oasis, mas sai como se fosse Eller. That’s right.
Não é todo mundo que aguenta não saber se cai ou se voa. A diferença é o pouso e esse é teu cuidado, little bird. Essa coisa fina que chamo de vontade e tu de necessidade. A palavra tira sangue para me dar vida, eu respiro fundo e sinto o cheiro. Peço muda por um gesto delicado, mesmo não querendo. Prezo pelo lado que cai pra baixo no dado. O subentendido. O que no meu faz sentido, no teu confusão. O muro que divide os dois fui eu mesma que construí com todo o cuidado dele ser ligado por faltas. Eu subi enquanto construía, pedaço por pedaço, ainda assim há o que eu desconheço. Mas ao parar de levantá-lo, olhando ao redor, a vista é tão bonita. Eu só não pinto porque não sei pintar. E se pintasse, só sairia eu. Um legado que Frida me deixou. E como ela luto, mas vou acabar indo embora, little bird, tu sabe bem do meu medo de ficar ou de ir na hora errada.

Sing to me now.  Eu vou embora de manhã, mas prometo te deixar uma flor. Na cabeceira ou no peito.

Isso é o que fica: a beleza do que foi um dia, a delicadeza da lembrança que quando era presente rasgou. 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

São nessas horas que me batem as certezas, meu bem,


e me cortam como as incertezas te fazem. O ponto que não se sabe contar ou regredir me dá medo e eu fujo para onde não há luz. Sem toda aquela beleza que costumava haver nas entrelinhas (e talvez sem entrelinhas). Cru, nu e nada puro. Mais claro e menos espesso. O segredo se esvaindo e a podridão vindo do porão. Todo o lado negro que o ser tem escondido ou exposto junto com os olhos. O ato mais primitivo.
A arte que todo mundo tem no fundo da veia. O artista que não tem salvação e tenta salvar. O destino de quem se entrega a dor do que há de bonito para sentir. Há dor. Mas há prazer.
São nessas horas que o vazio que o mundo tem parece pesar uma tonelada e não doer. Não arranha, não rasga, não perfura. Só pesa se não sabe como aliviar. São nessas horas que agarro a perna e penso em voltar para dentro, me fechar para fora. Guardar os restos e juntar com os que sobraram por aqui. Mas volto. Eu volto, meu bem.
O breve momento que o rosto se deixa enganar pelo reflexo. Se confunde com outros mil e se acha na perdição de se confundir. Um momento íntimo consigo mesmo de saber que não se saber é o caminho. Don’t think twice, it’s all right. Mas há a hesitação e o êxito, tudo na mesma linha porque a distância hoje agride. Eu aguardo o espaço menor, a expansão maior. A explosão que tu não assistiu.
O fim deveria guardar tanta coisa, porém sabe o oco que não pesa? Ele pousou aqui. Bem aqui. Na curva que o pulso faz para colocar mais uma letra, na pausa para respirar o ar que tu nunca. Junto todas as forças restantes para o último ponto e só me surgem vírgulas, parenteses não fechados e uma aspa não colocada… Agora foram três e eu nem vi chegar. A força chegou. Essa é a última linha e eu só queria dizer que o  rosto ainda é confundido, as certezas me fodem e que há dor. Há tu, há nosso penar. Ainda há.

domingo, 28 de abril de 2013

o teu silêncio distraído é meu destino que eu não sei.

sábado, 13 de abril de 2013

Do que não completei (...)


Não sei quem deu as cartas dessa vez, nem onde acabou todo aquele vendaval que criamos. Mas nos perdemos como de costume, tu n'uma esquina que nunca irei cruzar e eu n'uma praia que tu nunca saberá o nome. Todas as peças espalhadas no xadrez sem saber em que parte ficar, porque nenhum de nós soube arrumar para começar de novo. Fomos sem jeito e perdidos. Como sempre.
Todos os passos não contados rimando com o dissabor do fim. As nossas histórias fazendo par com mais outras mil. Banais. E então eu não lembrarei mais do teu cheiro e você não vai mais distinguir meu sorriso. Seremos dois pássaros cruzando no infinito em círculos, mas em diferentes bandos. Os próprios, pois sozinhos. O ar será o mesmo, mas o respirar não. Mudamos os pulmões, estão um pouco mais cansados. A poeira acumulada de todos os abandonos presos num só tapete branco do mundo inteiro, as nuvens, que também abandonam e vão embora. É tudo vão... Eu não senti a dor, foi uma ferida que nem teve tempo de sangrar e virou cicatriz. Uma marca permanente e bonita. Sorridente.

(...) e nunca vou.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

O mais (re)batido possível


Com o começo, eram dois. Ou duas.
Dois seres, duas pessoas.
Duas vidas, dois viveres.
Histórias, dizeres.
Divididos, compartilhados.
Únicos dois. Únicas duas.

Com o tempo, se digerem. Se mastigam.
Um, uma.
Um meio, uma metade.
Pesado, deixada.
Cortado, rasgada.
Comum um, normal uma.

Com o fim, se desgastam. Se destroçam.
Nem um, nem uma.
Nenhum, nenhuma.
Vazio, vaga,
Findado, acabada.
Zero um, o outro nada.